Hoje quando vinha apanhar o metro para o trabalho na estação do Oriente -que hoje mais parece um abrigo subterrâneo, igual ao que se vê nas imagens da guerra da Ucrânia- onde como eu, multidões correm para suas destinações, uma cena trágico-cómica se desenrolou, deixando um rastro de reflexão sobre nossa humanidade compartilhada.
Ali, naquele caos
organizado, um sem-abrigo, alheio às pressas dos outros, decidiu desafiar o
tempo implacável e perguntou a um passageiro apressado: "Por favor, pode-me
dizer que horas são?" Uma pergunta simples, um pedido de conexão com um
mundo repleto de rostos desconhecidos.
Mas o que aconteceu a
seguir parecia saído de uma peça de teatro absurda. O passageiro, envolto em
sua própria bolha de preocupações e ocupações, continuou sua jornada sem nem ao
menos lançar um olhar ao sem-abrigo. Era como se o mundo dele fosse encapsulado
em uma bolha, impenetrável e indiferente.
Essa desconexão, que
poderia ser trágica devido à sua crueldade, assumiu uma tonalidade de comédia
negra. A ironia perversa de alguém a perguntar as horas a alguém tão atrelado
ao tempo e, ao mesmo tempo, tão distante da humanidade do outro, pairava no ar.
Era uma cena que capturava o paradoxo humano de estar cercado por outros, mas
ainda assim, tão solitário.
O sem-abrigo, na sua
busca por um simples vislumbre de conexão, foi deixado com as mãos vazias, uma
lembrança dolorosa da invisibilidade que ele enfrenta quotidianamente. O
passageiro, imerso em sua corrida quotidiana, não percebeu o impacto que seu
silêncio teve naquele breve encontro.
Nessa encruzilhada
entre tragédia e a comédia, um retrato contundente da vida moderna emergiu. Um
sem-abrigo, uma pergunta, um olhar desviado - tudo isso convergiu para formar
um microcosmo de nossa sociedade apressada e, muitas vezes, indiferente. A cena
podia ser vista como um reflexo de nossa própria desconexão, uma lembrança de
que, enquanto nos movemos rapidamente em nossas trajetórias individuais,
devemos lembrar de lançar olhares gentis e atentos aos outros que cruzam nosso
caminho.

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