segunda-feira, 28 de agosto de 2023

"Por favor, pode-me dizer que horas são?"

 

Hoje quando vinha apanhar o metro para o trabalho na estação do Oriente -que hoje mais parece um abrigo subterrâneo, igual ao que se vê nas imagens da guerra da Ucrânia- onde como eu, multidões correm para suas destinações, uma cena trágico-cómica se desenrolou, deixando um rastro de reflexão sobre nossa humanidade compartilhada.

Ali, naquele caos organizado, um sem-abrigo, alheio às pressas dos outros, decidiu desafiar o tempo implacável e perguntou a um passageiro apressado: "Por favor, pode-me dizer que horas são?" Uma pergunta simples, um pedido de conexão com um mundo repleto de rostos desconhecidos.

Mas o que aconteceu a seguir parecia saído de uma peça de teatro absurda. O passageiro, envolto em sua própria bolha de preocupações e ocupações, continuou sua jornada sem nem ao menos lançar um olhar ao sem-abrigo. Era como se o mundo dele fosse encapsulado em uma bolha, impenetrável e indiferente.

Essa desconexão, que poderia ser trágica devido à sua crueldade, assumiu uma tonalidade de comédia negra. A ironia perversa de alguém a perguntar as horas a alguém tão atrelado ao tempo e, ao mesmo tempo, tão distante da humanidade do outro, pairava no ar. Era uma cena que capturava o paradoxo humano de estar cercado por outros, mas ainda assim, tão solitário.

O sem-abrigo, na sua busca por um simples vislumbre de conexão, foi deixado com as mãos vazias, uma lembrança dolorosa da invisibilidade que ele enfrenta quotidianamente. O passageiro, imerso em sua corrida quotidiana, não percebeu o impacto que seu silêncio teve naquele breve encontro.

Nessa encruzilhada entre tragédia e a comédia, um retrato contundente da vida moderna emergiu. Um sem-abrigo, uma pergunta, um olhar desviado - tudo isso convergiu para formar um microcosmo de nossa sociedade apressada e, muitas vezes, indiferente. A cena podia ser vista como um reflexo de nossa própria desconexão, uma lembrança de que, enquanto nos movemos rapidamente em nossas trajetórias individuais, devemos lembrar de lançar olhares gentis e atentos aos outros que cruzam nosso caminho.

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